Eu não sabia o que fazer direito. Pra falar a verdade eu acho que ninguém ali sabia. A moça agonizava com o braço sangrando, segurando a ferida com a mão como se isso fosse fazer parar de jorrar o sangue que pingava no vestido amarelo dela, enquanto os outros tentavam imobilizar o cara estirado no chão, que relutava para levantar. Foi quando eu vi, no braço direito dele havia outra mordida e ela não parecia tão recente.
Por um momento me veio cenas de filmes de terror na cabeça. Será que isso é um pesadelo?! Ou ainda, será que as histórias que a minha avó contava sobre magia negra era verdade?! Dei um tapa na minha testa pra ver se esses pensamentos idiotas saíam dali. Eu precisava fazer algo, sei lá... Saber o porquê de isso tudo estar desse jeito! Comecei a me perder em pensamentos e perguntas. Por que o cara arrancou um pedaço da mulher com os dentes? Será que eu vou ser preso por ter esmagado o crânio do contador? Isso vai afetar o meu salário? E acima de tudo, COMO DIABOS NINGUÉM AINDA CHAMOU A POLÍCIA?!
Corri pro telefone do meu cubículo e no caminho notei que a secretária gritava no celular dela, chorando e pedindo por ajuda. Bom, ao menos alguém chamou ajuda!
– Thomas! - Veio alto, do lado de lá da parede do meu cubículo. Quando olhei por cima, lá estava o Mateus. Ele trabalhava no setor de informática da empresa. Acho que um ou dois anos mais velho que eu, cabeludo... Pálido que nem um isopor e com olheiras gigantes, porém mantinha um físico razoavelmente bom e media perto dos 1,90, o que impedia que alguém o chamasse de Nerd Escroto.Por fim, ele era um dos poucos caras que eu não queria que morresse de forma agonizante aqui na empresa.
– Porra, Mateus! Cê viu o que aconteceu aqui agora? Eu acabei de acert...
– Vi! E eu preciso te mostrar uma coisa! Corre pra cá! – ele disse, me interrompendo.
Peguei o meu cigarro e corri até lá depressa.
– Eu suspeitei, cara. Sabia! Desde que eu vi aquela notícia de manhã na TV.
– Suspeitou do que?
– Heh. Cê não achou estranho não? Militares... Caminhão com conteúdo científico... Pessoal mordendo todo mundo.
– Hum. Ta certo que os caras da contabilidade são escrotos, mas...
– Saca só. – Disse ele, abrindo a porta de sua sala, um tanto quanto escura por sinal, revelando a TVzinha que ele mantinha do lado do computador e toda aquela zona de papéis e latas de refrigerante.
A TV mostrava o repórter num lugar que eu reconheci como o centro da cidade, perto dali, numa rua de pedestres. Uma bagunça atrás, com gente correndo, saqueando lojas, e o cara dizia algo relacionado ao hospital dali de perto, de uma infecção que estava se espalhando de forma similar com a raiva e ele falava isso quase gritando, com o dedo no ouvido, tentando falar mais alto que a putaria que acontecia atrás dele.
– Puta merda! Infecção? Isso ta parecendo coisa de filme.
– Tom. A gente tem que sair daqui, cara. Esse negócio espalha pela mordida e...
Enquanto ele me falava, eu via a TV atrás dele. O cameraman afastando, o repórter continuando a gritar daquele jeito e... CARALHO! Um cara grudou no pescoço dele!
– MATEUS, OLHA PRA TV!
Ele olhou e ficou lá alguns segundos, gritando com as mãos na cabeça e depois de um tempo começou a fuçar nas coisas dele. Tirou a mochila do canto daqueles armários de arquivos, terminou o energético que tinha do lado do monitor e então colocou a mão no meu ombro e disse:
– Você veio de carro hoje?
– Eu não tenho carro.
– Eu preciso ver como a minha mãe ta, Tom... Ela já tava doente.
– E você mora aonde?
– Taquaral. – Não era tão longe dali. O cara morava com a mãe e ela era a única pessoa que sobrou da família dele... Eu não podia negar.
– Tá certo então. Vamos pro estacionamento, vai que a gente acha uma carona.
Quando eu terminei de falar, o alarme de incêndio soou alto no prédio inteiro, e a luz começou a tremer. Nem dissemos nada, abrimos a porta e encontramos o corredor inundado pelo sistema anti-incêndio e do lado dos cubículos, uma luz vermelha.
– Vamos pela escada! – disse ele.
É, pelo elevador eu não ia nem que me pagassem. Depois que eu vi um contador arrancar o pescoço de um cara com os dentes. A gente correu pelo outro lado do corredor, passou por umas cinco portas até que podíamos ver já a escada de incêndio no fundo do corredor. Eu fui à frente, abri aquela porta pesada e comecei a correr os degraus praticamente. Chegava perto dos últimos cinco e dava um pulo pra ir mais rápido e Mateus atrás de mim. Quando eu estava descendo o terceiro andar, eu segurei o pulo. Tinha um cara estirado, com a camisa suja de sangue e cara pro chão. Mateus quase esbarrou em mim e assim que parou do meu lado viu a mesma cena.
– Caralho... – disse ele colocando a mão na testa.
– Vamos indo, Mateus. Esse cara aí vai dar merda.
– Mas, cara... E se ele estiver vivo?
Eu evitei por alguns segundos, mas acabei perguntando...
– Quer ir ver?
Ele desceu devagar os últimos degraus. Chegou perto do corpo devagar e, ajeitando com uma mão o cabelo pra trás da orelha, agachou e cutucou o homem com o dedo, perguntando se ele estava bem... e não respondeu.
Olhou pra mim. Eu fiz “não” com a cabeça. Ele virou pro corpo estirado no chão e ficou por alguns segundos olhando o cara ali, enquanto aquele alarme ainda soava pelo prédio. Depois de algum tempo ele levantou, olhou pra mim e disse:
– Acho que ele ta morto.
– É... o mais foda, é que ele provavelmente morreu por uma mordida.
– A gente devia fazer o que com o c- AGH!
Ele gritou surpreso e quando eu reparei, o “corpo” estava agarrando a perna dele, gemendo igual aos mordidos lá de cima. Foi só ele abrir a boca pra morder a perna dele que eu praticamente voei com o calcanhar na garganta do defunto e depois comecei a chutá-lo na cabeça. Nossa, eu tava muito puto! E por mais que eu chutasse, o cara continuava tentando me segurar e então, puxado pela camisa, eu comecei a fugir junto com o Mateus pelas escadas abaixo.
De tempos em tempos eu olhava para trás para ver se estávamos sendo seguidos pelo morto mas parecia que não. No caminho, desviamos de alguns corpos e quando chegamos ao térreo, decidimos ir pelo estacionamento, imaginando que seria mais fácil conseguir carona e que estaria menos tumulto. Descemos.
Quando ele abriu a porta...
Eu queria ter saído pela recepção.
Além de presenciar metade dos carros pegando fogo, eu vi uma moça tentando salvar um rapaz, batendo com a mão nas costas do que o mordia, pouco antes dela ser arrastada por mais dois e ter o pescoço trucidado...
Não sabia direito o que fazer...
Eu só queria sair dali.
