18 de outubro de 2009
3: Tudo faz menos sentido.
29 de setembro de 2009
2: WTF?!
Aquele carro fedia.
Eu mal entrei completamente no carro e Kevin começou a movê-lo em direção ao ultimo nível do estacionamento. Ele é aquele tipo de cara que você odeia, mas é obrigado a conviver e a não arrancar os dentes por causa de favores úteis que algum dia ele pode vir a prestar. Veja bem, quando se tem o filho de um traficante como colega, é melhor não fazer nada de ruim a ele. Ele é fiscal da área de logística do meu trabalho e a empresa trabalha com farmacêuticos, então, hora ou outra, ele consegue tirar algo pra revender por aí. Ilegalmente, é claro.
Ele estacionou o carro do lado de um furgão, no ultimo nível do estacionamento e desligou-o com pressa, abrindo o porta-luvas à minha frente. Mexeu, tirou alguns papéis rabiscados, propagandas de condomínios até que finalmente retirou do fundo um embrulho de pano cinza. Colocou sob o colo, olhou algumas vezes ao redor para se certificar de que ninguém estava olhando e abriu aquele sorriso torto e cheio de empolgação e me disse com a voz baixa, enquanto desdobrava o tecido.
- Nove milímetros, quinze balas no pente, polímero preto e menos de quinze centímetros de comprimento. E pesa menos de um quilo!
- Caralho, Kevin! Precisa me mostrar essa porra na empresa?
Era uma Glock 19! Eu achei que ele estava brincando quando disse que conheceu um cara que trazia armas dentro de bois do Paraguai para o Brasil mas quando eu vi aquela arma, obviamente proibida aqui, eu me senti um tanto que baqueado. Eu nunca tinha visto uma arma tão de perto antes, pelo menos não esse tipo de arma; calibre 9 mm, de pequeno porte e daquelas que você só vê nos jogos de computador. Eu costumava atirar com a cartucheira do meu avô na fazenda, mas isso faz certo tempo e, bem, era para caçar abutres e não matar gente! Abri a porta do carro enquanto ele guardava de novo a arma no pano, rindo que nem uma besta, e eu ainda meio que eufórico. É, acho que essa é a expressão. Andei até o elevador tentando não ser visto com ele quando ele gritou:
- Ei! Se quiser algo é só pedir, huh?!
Eu não respondi nada. Só fiz um “jóia” com o braço por cima do ombro e apertei o botão do elevador umas sessenta vezes e entrei o mais rápido que pude. Aos poucos, enquanto entravam funcionários da empresa, ia ficando aquele cheiro de suor com shampoo, eu me lembrei do dia que eu tinha pela frente e desejei que o mundo terminasse.
Cheguei ao famigerado 4º andar. Coloquei o meu paletó, fone de ouvido e fui direto pro meu cubículo. Mal vi o dia passar. Tanta merda pra aturar de clientes reclamando, tanta merda pra aturar do meu chefe reclamando, até o faxineiro me xingou por eu ter deixado cair sabonete líquido na pia!
Merda de emprego.
Comecei a me animar quando faltavam somente mais trinta eternos minutos. A minha atenção toda voltada para o relógio no desktop do computador, que mais parecia uma carroça, quando o som de portas batendo chega ao meu cubículo junto de alguns gritos. Era um rapaz jovem, provavelmente um officeboy, e arrastava um dos velhos que trabalha na contabilidade. quando me dei conta que eu vi: ele estava sangrando! Tirei o fone de ouvido e o AC-DC deu lugar a berros e gritos de socorro e levantei com um pulo da cadeira. Corri para ajudar e chegando lá eu vi uma cena que me embrulhou o estômago...
- Ele o mordeu! O mordeu no pescoço! – gritava o rapaz, puxando o homem pelos braços pra dentro da sala.
- Mordeu? Como assim?! – repetia o meu chefe.
- Ele! – apontou o rapaz para dentro do elevador - Ele o mordeu quando estávamos entrando!
Outros valentões foram até a porta que bloqueavam com o braço para que não fechasse e deram de cara com o sujeito gordo que fez o ataque. Ele tinha a boca suja de sangue, estava encostado na parede, meio cambaleante. Provavelmente o officeboy o atacou para poder ajudar o velho e o deixou naquele estado. Quando eu reparei, os caras que foram até o elevador estavam pedindo para que o psicopata ficasse parado e, quando um deles o socou no rosto, o gordo o agarrou e o mordeu na altura dos ombros!
O homem agonizava de dor e gritava por ajuda! Todos estavam estagnados com o que acabara de acontecer e algumas mulheres choravam enquanto tentavam ajudar o senhor que sangrava largado no chão e tinha ataques de convulsão, revirando os olhos. Eu peguei o extintor que ficava do lado do elevador e desci na cabeça do gordo que mordia e que por sua vez caiu no chão com o som oco que fez o metal vermelho ao chocar-se com a sua testa.
Todos me olharam. Olhos arregalados. A atenção se focou em mim por alguns minutos, até que um grito agudo veio da moça que ajudava o ferido. O homem que antes estava largado no chão, incapacitado, havia a mordido no braço e arrancando-lhe um pedaço! Ela gritava de dor e caiu chorando para trás. Agora os outros de pé começaram a tentar imobilizá-lo e ele gemia de maneira gutural... era assustador.
Só uma coisa ecoava na minha cabeça agora.
Mas...
...que...
...MERDA?!
28 de setembro de 2009
1: Rotina...
Eu estava cansado.
Acordei hoje, como de praxe, perto das 6:00 e nem sequer o Sol teve coragem de levantar. Mais uma vez irritado, claro, pelo soar do meu despertador. É daqueles velhos, bem toscos, com apenas três botões e com um som que me lembra como é ter uma visão do inferno. Bem, eu não moro em um apartamento muito grande, considerando que eu durmo praticamente grudado com a cozinha, em minha sala, então eu não perdi muito tempo em pôr alguma coisa pra fazer enquanto eu passava a minha roupa.
Liguei a TV e mudei por alguns canais enquanto tomava a minha cerveja matinal. Passei pelos desenhos, o qual eu admito ter perdido alguns minutos, e logo depois para esportes; esse não resistiu sequer dez segundos. Acabei largando o controle remoto no meu sofá-cama, parando no noticiário. Quando eu me dei conta que a imagem na TV era de camburões e caminhões do exército parados no que me parecia ser uma rodovia, eu aumentei o volume.
- Estamos de volta com a cobertura do acidente na Rodovia Dom Pedro, na cidade de Campinas, no quilometro 58, próximo à entrada para Barão Geraldo. Aparentemente, o caminhão que capotou tinha como destino uma das instalações da Universidade de Campinas. Militares estão isolando a área, alarmando que possivelmente uma substância química instável pode ter vazado. É recomendação da Secretaria de Saúde que o trânsito no local seja evitado, e os moradores sejam ev-
Em um instante, a TV desligou sozinha. Soube que foi por causa de uma queda na energia devido ao som bizarro e já comum que a minha geladeira faz junto com alguns saltos quando ela se para de funcionar. Merda. Mais uma vez, banho frio em pleno inverno. No centro. Murphy com certeza tem um novo favorito.
Dentro de alguns minutos eu já estava na rua. Paletó no ombro, torrada com geléia na boca e passe do ônibus em mãos. Passei na padaria na esquina de casa para comprar um maço de cigarros, quando a energia voltou e a TV de lá ligou novamente. Aí então, a ruivinha que eu sempre flerto e sempre esqueço o nome, do balcão, Tomou um susto e, depois de uma risadinha meio sem graça, desligou o aparelho. Eu ri, mas não pude deixar de reparar que a TV mostrara a mesma notícia que via em casa, porém agora havia alguém de uniforme militar empurrando o cameraman para trás. Essa cena me fez pensar do que se tratava a carga do caminhão, mas logo parei de me preocupar, visando que aquela rodovia não fazia mais parte da minha rotina. Acabei deixando de lado.
Certo. Tudo pronto para enfrentar mais um dia naquele escritório maldito. Cigarro na boca, cafeína em meu sangue e uma boa dose de mau-humor – tudo na rotina. Estava cedo e resolvi ir a pé para economizar o dinheiro do passe que a empresa me dá, lembrando do aniversário de um amigo meu. Entrei no estacionamento quando eu ouço o desagradável som de uma buzina familiar.
- Hei! Você! É a polícia! Hahaha!
Ignorei.
- Vamos lá, Tom. Cadê o seu senso de humor? – insistiu o meu “amigo” de trabalho, Kevin.
Esse cara tem um sério problema. Eu resolvi dar um sorriso amarelo pra ver se ele me deixava em paz. Nada.
-Bem, suba no carro. Preciso te mostrar algo.
Parei. De repente, me veio memórias. Abri a porta do passageiro e entrei naquele Chevete caindo aos pedaços.
Vai ser um longo, longuíssimo dia.
