29 de setembro de 2009

2: WTF?!

Aquele carro fedia.

Eu mal entrei completamente no carro e Kevin começou a movê-lo em direção ao ultimo nível do estacionamento. Ele é aquele tipo de cara que você odeia, mas é obrigado a conviver e a não arrancar os dentes por causa de favores úteis que algum dia ele pode vir a prestar. Veja bem, quando se tem o filho de um traficante como colega, é melhor não fazer nada de ruim a ele. Ele é fiscal da área de logística do meu trabalho e a empresa trabalha com farmacêuticos, então, hora ou outra, ele consegue tirar algo pra revender por aí. Ilegalmente, é claro.

Ele estacionou o carro do lado de um furgão, no ultimo nível do estacionamento e desligou-o com pressa, abrindo o porta-luvas à minha frente. Mexeu, tirou alguns papéis rabiscados, propagandas de condomínios até que finalmente retirou do fundo um embrulho de pano cinza. Colocou sob o colo, olhou algumas vezes ao redor para se certificar de que ninguém estava olhando e abriu aquele sorriso torto e cheio de empolgação e me disse com a voz baixa, enquanto desdobrava o tecido.

- Nove milímetros, quinze balas no pente, polímero preto e menos de quinze centímetros de comprimento. E pesa menos de um quilo!
- Caralho, Kevin! Precisa me mostrar essa porra na empresa?

Era uma Glock 19! Eu achei que ele estava brincando quando disse que conheceu um cara que trazia armas dentro de bois do Paraguai para o Brasil mas quando eu vi aquela arma, obviamente proibida aqui, eu me senti um tanto que baqueado. Eu nunca tinha visto uma arma tão de perto antes, pelo menos não esse tipo de arma; calibre 9 mm, de pequeno porte e daquelas que você só vê nos jogos de computador. Eu costumava atirar com a cartucheira do meu avô na fazenda, mas isso faz certo tempo e, bem, era para caçar abutres e não matar gente! Abri a porta do carro enquanto ele guardava de novo a arma no pano, rindo que nem uma besta, e eu ainda meio que eufórico. É, acho que essa é a expressão. Andei até o elevador tentando não ser visto com ele quando ele gritou:

- Ei! Se quiser algo é só pedir, huh?!

Eu não respondi nada. Só fiz um “jóia” com o braço por cima do ombro e apertei o botão do elevador umas sessenta vezes e entrei o mais rápido que pude. Aos poucos, enquanto entravam funcionários da empresa, ia ficando aquele cheiro de suor com shampoo, eu me lembrei do dia que eu tinha pela frente e desejei que o mundo terminasse.

Cheguei ao famigerado 4º andar. Coloquei o meu paletó, fone de ouvido e fui direto pro meu cubículo. Mal vi o dia passar. Tanta merda pra aturar de clientes reclamando, tanta merda pra aturar do meu chefe reclamando, até o faxineiro me xingou por eu ter deixado cair sabonete líquido na pia!


Merda de emprego.


Comecei a me animar quando faltavam somente mais trinta eternos minutos. A minha atenção toda voltada para o relógio no desktop do computador, que mais parecia uma carroça, quando o som de portas batendo chega ao meu cubículo junto de alguns gritos. Era um rapaz jovem, provavelmente um officeboy, e arrastava um dos velhos que trabalha na contabilidade. quando me dei conta que eu vi: ele estava sangrando! Tirei o fone de ouvido e o AC-DC deu lugar a berros e gritos de socorro e levantei com um pulo da cadeira. Corri para ajudar e chegando lá eu vi uma cena que me embrulhou o estômago...
- Ele o mordeu! O mordeu no pescoço! – gritava o rapaz, puxando o homem pelos braços pra dentro da sala.
- Mordeu? Como assim?! – repetia o meu chefe.
- Ele! – apontou o rapaz para dentro do elevador - Ele o mordeu quando estávamos entrando!

Outros valentões foram até a porta que bloqueavam com o braço para que não fechasse e deram de cara com o sujeito gordo que fez o ataque. Ele tinha a boca suja de sangue, estava encostado na parede, meio cambaleante. Provavelmente o officeboy o atacou para poder ajudar o velho e o deixou naquele estado. Quando eu reparei, os caras que foram até o elevador estavam pedindo para que o psicopata ficasse parado e, quando um deles o socou no rosto, o gordo o agarrou e o mordeu na altura dos ombros!

O homem agonizava de dor e gritava por ajuda! Todos estavam estagnados com o que acabara de acontecer e algumas mulheres choravam enquanto tentavam ajudar o senhor que sangrava largado no chão e tinha ataques de convulsão, revirando os olhos. Eu peguei o extintor que ficava do lado do elevador e desci na cabeça do gordo que mordia e que por sua vez caiu no chão com o som oco que fez o metal vermelho ao chocar-se com a sua testa.

Todos me olharam. Olhos arregalados. A atenção se focou em mim por alguns minutos, até que um grito agudo veio da moça que ajudava o ferido. O homem que antes estava largado no chão, incapacitado, havia a mordido no braço e arrancando-lhe um pedaço! Ela gritava de dor e caiu chorando para trás. Agora os outros de pé começaram a tentar imobilizá-lo e ele gemia de maneira gutural... era assustador.

Só uma coisa ecoava na minha cabeça agora.



Mas...


...que...


...MERDA?!

3 comentários:

Joe Fox disse...

What...
The...
Fuck?!?
UHAUIEAHUAE

NUKE disse...

Shooowtf!!

SPKF disse...

Man!

Você se supera!

Continua!
HUAha!

E o cara que falou legalzinho, não merece se chamar Felipe