18 de outubro de 2009

3: Tudo faz menos sentido.

Eu não sabia o que fazer direito. Pra falar a verdade eu acho que ninguém ali sabia. A moça agonizava com o braço sangrando, segurando a ferida com a mão como se isso fosse fazer parar de jorrar o sangue que pingava no vestido amarelo dela, enquanto os outros tentavam imobilizar o cara estirado no chão, que relutava para levantar. Foi quando eu vi, no braço direito dele havia outra mordida e ela não parecia tão recente.

Por um momento me veio cenas de filmes de terror na cabeça. Será que isso é um pesadelo?! Ou ainda, será que as histórias que a minha avó contava sobre magia negra era verdade?! Dei um tapa na minha testa pra ver se esses pensamentos idiotas saíam dali. Eu precisava fazer algo, sei lá... Saber o porquê de isso tudo estar desse jeito! Comecei a me perder em pensamentos e perguntas. Por que o cara arrancou um pedaço da mulher com os dentes? Será que eu vou ser preso por ter esmagado o crânio do contador? Isso vai afetar o meu salário? E acima de tudo, COMO DIABOS NINGUÉM AINDA CHAMOU A POLÍCIA?!

Corri pro telefone do meu cubículo e no caminho notei que a secretária gritava no celular dela, chorando e pedindo por ajuda. Bom, ao menos alguém chamou ajuda!

– Thomas! - Veio alto, do lado de lá da parede do meu cubículo. Quando olhei por cima, lá estava o Mateus. Ele trabalhava no setor de informática da empresa. Acho que um ou dois anos mais velho que eu, cabeludo... Pálido que nem um isopor e com olheiras gigantes, porém mantinha um físico razoavelmente bom e media perto dos 1,90, o que impedia que alguém o chamasse de Nerd Escroto.Por fim, ele era um dos poucos caras que eu não queria que morresse de forma agonizante aqui na empresa.
– Porra, Mateus! Cê viu o que aconteceu aqui agora? Eu acabei de acert...
– Vi! E eu preciso te mostrar uma coisa! Corre pra cá! – ele disse, me interrompendo.

Peguei o meu cigarro e corri até lá depressa.

– Eu suspeitei, cara. Sabia! Desde que eu vi aquela notícia de manhã na TV.
– Suspeitou do que?
– Heh. Cê não achou estranho não? Militares... Caminhão com conteúdo científico... Pessoal mordendo todo mundo.
– Hum. Ta certo que os caras da contabilidade são escrotos, mas...
– Saca só. – Disse ele, abrindo a porta de sua sala, um tanto quanto escura por sinal, revelando a TVzinha que ele mantinha do lado do computador e toda aquela zona de papéis e latas de refrigerante.

A TV mostrava o repórter num lugar que eu reconheci como o centro da cidade, perto dali, numa rua de pedestres. Uma bagunça atrás, com gente correndo, saqueando lojas, e o cara dizia algo relacionado ao hospital dali de perto, de uma infecção que estava se espalhando de forma similar com a raiva e ele falava isso quase gritando, com o dedo no ouvido, tentando falar mais alto que a putaria que acontecia atrás dele.

– Puta merda! Infecção? Isso ta parecendo coisa de filme.
– Tom. A gente tem que sair daqui, cara. Esse negócio espalha pela mordida e...

Enquanto ele me falava, eu via a TV atrás dele. O cameraman afastando, o repórter continuando a gritar daquele jeito e... CARALHO! Um cara grudou no pescoço dele!

– MATEUS, OLHA PRA TV!

Ele olhou e ficou lá alguns segundos, gritando com as mãos na cabeça e depois de um tempo começou a fuçar nas coisas dele. Tirou a mochila do canto daqueles armários de arquivos, terminou o energético que tinha do lado do monitor e então colocou a mão no meu ombro e disse:

– Você veio de carro hoje?
– Eu não tenho carro.
– Eu preciso ver como a minha mãe ta, Tom... Ela já tava doente.
– E você mora aonde?
– Taquaral. – Não era tão longe dali. O cara morava com a mãe e ela era a única pessoa que sobrou da família dele... Eu não podia negar.
– Tá certo então. Vamos pro estacionamento, vai que a gente acha uma carona.

Quando eu terminei de falar, o alarme de incêndio soou alto no prédio inteiro, e a luz começou a tremer. Nem dissemos nada, abrimos a porta e encontramos o corredor inundado pelo sistema anti-incêndio e do lado dos cubículos, uma luz vermelha.

– Vamos pela escada! – disse ele.

É, pelo elevador eu não ia nem que me pagassem. Depois que eu vi um contador arrancar o pescoço de um cara com os dentes. A gente correu pelo outro lado do corredor, passou por umas cinco portas até que podíamos ver já a escada de incêndio no fundo do corredor. Eu fui à frente, abri aquela porta pesada e comecei a correr os degraus praticamente. Chegava perto dos últimos cinco e dava um pulo pra ir mais rápido e Mateus atrás de mim. Quando eu estava descendo o terceiro andar, eu segurei o pulo. Tinha um cara estirado, com a camisa suja de sangue e cara pro chão. Mateus quase esbarrou em mim e assim que parou do meu lado viu a mesma cena.

– Caralho... – disse ele colocando a mão na testa.
– Vamos indo, Mateus. Esse cara aí vai dar merda.
– Mas, cara... E se ele estiver vivo?

Eu evitei por alguns segundos, mas acabei perguntando...

– Quer ir ver?

Ele desceu devagar os últimos degraus. Chegou perto do corpo devagar e, ajeitando com uma mão o cabelo pra trás da orelha, agachou e cutucou o homem com o dedo, perguntando se ele estava bem... e não respondeu.

Olhou pra mim. Eu fiz “não” com a cabeça. Ele virou pro corpo estirado no chão e ficou por alguns segundos olhando o cara ali, enquanto aquele alarme ainda soava pelo prédio. Depois de algum tempo ele levantou, olhou pra mim e disse:

– Acho que ele ta morto.
– É... o mais foda, é que ele provavelmente morreu por uma mordida.
– A gente devia fazer o que com o c- AGH!

Ele gritou surpreso e quando eu reparei, o “corpo” estava agarrando a perna dele, gemendo igual aos mordidos lá de cima. Foi só ele abrir a boca pra morder a perna dele que eu praticamente voei com o calcanhar na garganta do defunto e depois comecei a chutá-lo na cabeça. Nossa, eu tava muito puto! E por mais que eu chutasse, o cara continuava tentando me segurar e então, puxado pela camisa, eu comecei a fugir junto com o Mateus pelas escadas abaixo.

De tempos em tempos eu olhava para trás para ver se estávamos sendo seguidos pelo morto mas parecia que não. No caminho, desviamos de alguns corpos e quando chegamos ao térreo, decidimos ir pelo estacionamento, imaginando que seria mais fácil conseguir carona e que estaria menos tumulto. Descemos.

Quando ele abriu a porta...
Eu queria ter saído pela recepção.

Além de presenciar metade dos carros pegando fogo, eu vi uma moça tentando salvar um rapaz, batendo com a mão nas costas do que o mordia, pouco antes dela ser arrastada por mais dois e ter o pescoço trucidado...

Não sabia direito o que fazer...

Eu só queria sair dali.

3 comentários:

NUKE disse...

"Tá certo que os caras da contabilidade são escrotos, mas..."

HAHAHAHAHA Mto bom! Curti esse conto, manda mais!!

Joe Fox disse...

Ja tava na hora hein!
Muito loco charlie brown!

News disse...

pqp, foda! tá me fazendo ter vontade de escrever essas doideras também. cara, muito foda, ainda mais pela liberdade de expressão na linguagem, palavrão pra todo lado, coisa inevitável numa situção dessas. haha

muito foda, Yosé.